Sede- só de conhecimento

Estudos hidrológicos podem evitar novas crises hídricas no país.

Sistema Cantareira. Mesmo quem não mora no Estado de São Paulo passou a reconhecer esse nome, frequentemente citado na mídia em 2015. A crise hídrica que afetou o Brasil naquele ano foi especialmente grave no estado paulista.

O Cantareira, complexo responsável pelo abastecimento de quase 9 milhões de pessoas – algo como a metade da população da Grande São Paulo – operou com o volume útil esgotado boa parte do ano passado e muitas vezes foi preciso utilizar o volume morto para que as pessoas pudessem ter pelo menos um pouco de água para satisfazer suas necessidades básicas.

O professor Antonio Carlos Zuffo, da Unicamp, especialista em sistemas hídricos, preocupa-se com cada gota desse problema. Autor do livro Gerenciamento de Recursos Hídricos, da Elsevier, ele faz parte de um projeto de apoio ao programa de monitoramento das águas, com foco em estudos hidrológicos e melhorias na operação de reservatórios – com destaque para o Sistema Cantareira.

O objetivo é estabelecer regras de operação, prevenindo secas. Conta o professor:

“Em maio de 2012, o LADSEA (Laboratório de Apoio Multicritério à Decisão Orientada à Sustentabilidade Empresarial e Ambiental) foi procurado pelo Consórcio Intermunicipal das Bacias de Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ) para a realização de estudos hidrológicos para subsidiar as negociações para a renovação da outorga do sistema, que ocorreriam a partir de 2013. Foi estabelecido, então, em 31 de julho de 2013, um convênio entre a UNICAMP e o Consórcio, com o 1º relatório sendo entregue em outubro do mesmo ano. Mas antes mesmo da existência do convênio, nós, do LADSEA, já buscávamos dados hidrológicos da bacia e outras informações.”

Os estudos prévios e as avaliações realizadas em função do convênio levaram a conclusões alarmantes, antecipando um cenário que realmente viria a se confirmar. Zuffo explica:

Em um evento realizado na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, em junho de 2011, já alertávamos que na próxima seca na região não teríamos água suficiente para atender às duas regiões metropolitanas de São Paulo e Campinas, pois as precipitações médias já davam sinais de diminuição. Em outubro de 2013, quando apresentamos publicamente os resultados preliminares do estudo, houve muito alvoroço. Pouco depois, no entanto, estávamos enfrentando a crise hídrica.

Uma necessidade confirmada pelos fatos

De acordo com Zuffo, seu livro acabou se revelando uma ferramenta muito importante para quem já atua ou pretende trabalhar na área.

Havia e ainda há uma limitação de bibliografia sobre o assunto. Os livros existentes, em sua maioria, foram escritos antes da aprovação da Politica Nacional de Recursos Hídricos, de 1997 (Lei 9.433/97), ou só apresentam os comentários das leis. Muito pouco era discutido sobre os problemas relativos aos recursos hídricos, planejamento ou o próprio gerenciamento. Esta lacuna dificultava a pesquisa dos alunos. Por isso, eu tinha como meta a elaboração de um livro que pudesse ser utilizado como bibliografia na graduação e pós-graduação em Engenharia ou Ciências da Terra, pois o tema água é abordado em diferentes cursos: Geologia, Geografia, Gestão Ambiental etc.

Segundo o autor, a obra já estava prevista antes da crise hídrica, que, apesar de ter contribuído muito com o aprendizado, ironicamente atrasou a redação do livro. Zuffo conta que durante o trabalho junto ao LADESA foi muito requisitado para proferir palestras por toda a região afetada – tanto por emissoras de TV quanto por jornais e a mídia internacional – além de se dedicar à elaboração dos relatórios.

Aprendendo com o planeta

Para chegar ao resultado final da obra, o autor consultou diversos artigos publicados por bases de dados de informação científica, pelo Banco Mundial e pela Política Nacional de Recursos Hídricos. Somou-se a isso sua própria experiência na área, que já soma quase 30 anos de trabalho dedicados à hidrologia e à Gestão de Recursos Hídricos. O autor afirma:

As bases de dados consultadas foram muito importantes na redação da obra, pois são uma constante na construção e divulgação do conhecimento. Durante esses últimos 30 anos, o conhecimento foi sendo construído a cada artigo lido, a cada informação adquirida. E a própria redação do livro permitiu a construção de conhecimento, pois este tem que ser ordenado e classificado para poder ser compartilhado. Os estudos do Sistema Cantareira também foram uma fonte de aprendizado, pois nos permitiu identificar muitos problemas da gestão com relação ao comportamento cíclico do clima, que ainda não conhecíamos.

Em outras palavras, para disponibilizar este conhecimento, o autor e sua equipe de pesquisadores contaram com um luxuoso auxílio: os sinais enviados pelo nosso próprio planeta.

Para mais informações sobre o livro do autorclique aqui