Uma Visão Moderna na Assistência Pré-Natal

No século XIX, o cuidado pré-natal se restringia à hora do parto e era reservado para os ricos. No começo do século XX, a alta mortalidade materna e infantil estimulou um movimento em prol da criação de instituições que atendessem gestantes. Em 1929, o Ministério da Saúde no Reino Unido oficializou a prática dos cuidados pré-natais na Inglaterra por meio de um memorando (Memorandum on Antenatal Clinics) que estipulava as primeiras linhas para a realização do pré-natal.

Esse documento recomendava que a primeira visita da gestante ao médico deveria ser na 16ª semana. Após essa primeira, novas visitas deveriam seguir na 24ª e na 28ª semanas, e, a partir daí, a cada duas semanas até a 36ª semana, e então semanalmente até o parto (Fig.37-1). Apesar de não explicar a razão dos intervalos e do conteúdo das consultas, esse memorando estabeleceu um padrão de cuidados pré-natais que é seguido no mundo inteiro até hoje.

Nos últimos 20 anos, tornou-se evidente que, em uma visita entre a 11ª e a 13ª semana, a obtenção e combinação de dados como características e história materna, achados de testes biofísicos e bioquímicos podem definir um risco específico para cada gestante em um amplo espectro de complicações na gestação, incluindo malformações fetais, aborto espontâneo, natimorto, pré-eclâmpsia, parto prematuro, diabetes gestacional, restrição de crescimento fetal e macrossomia. Estimar precocemente o risco individualizado de cada gestante para essas complicações pode melhorar a qualidade do cuidado pré-natal, saindo da tradicional série de visitas de rotina para um acompanhamento orientado, específico para cada gestante e sua doença.

Cada visita, nesse modelo, tem um objetivo definido e novos achados são utilizados para modificar os riscos estimados de cada grávida a partir da avaliação inicial. Da 11ª à 13ª semana, a grande maioria das mulheres seria classificada como de baixo risco para  complicações gestacionais e uma pequena porção delas seria selecionada como de alto risco (Fig. 37-1). No grupo de baixo risco, o número de visitas médicas poderia ser substancialmente reduzido.

O exame entre a 20ª e a 22ª semana reavaliaria a anatomia e o crescimento fetal, e reavaliaria o risco para complicações como pré-eclâmpsia e parto prematuro. Outra visita, na 37ª ou 38ª semana, poderia avaliar o bem-estar materno e fetal e determinaria o melhor tempo e método para o nascimento.

Visita semelhante a essa poderia ser repetida na 41ª semana para as poucas que ainda não tivessem chegado ao fim da gestação. O grupo de alto risco seria então acompanhado em centros especializados, que contassem com profissionais bem orientados quanto a investigações adicionais e cuidados necessários. Em uma dessas visitas, o risco seria reavaliado e as pacientes poderiam permanecer como de alto risco para determinada complicação ou se tornar de baixo risco. Nesta última condição, a intensidade dos cuidados poderia ser reduzida.

*Trecho retirado do livro Medicina Fetal, 2ª Edição - coleção FEBRASGO

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