Entrevista e exame iniciais em pacientes com transtornos mentais

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Ao se deparar com pessoas em sofrimento mental, estudantes de enfermagem e enfermeiros experimentam uma diversidade de emoções e sentimentos e, consequentemente, podem ter atitudes que variam entre aproximação, curiosidade ou afastamento e indiferença. Estas atitudes dos estudantes ou profissionais podem-se relacionar a mecanismos intrapsíquicos de autoproteção e defesa, ou a representações culturais sobre a doença mental presentes em nossa cultura, ou dificuldades para compreender o que o paciente expressa e integrar essa expressão no planejamento da assistência de enfermagem.

No Brasil, a assistência de enfermagem em Saúde Mental ainda é, muitas vezes, baseada em reações emocionais e atitudes leigas e instintivas do enfermeiro. O que se propõe é que essas emoções e atitudes possam ser vividas e integradas de modo profissional, em instrumentos de trabalho adequados para a abordagem terapêutica das pessoas em sofrimento mental. Para isso, apresentamos determinado instrumento de avaliação do estado mental e compreendemos esse instrumento de avaliação como um importante recurso tecnológico para a assistência de enfermagem nessa área, pois a assistência de enfermagem às pessoas em sofrimento mental requer um marco teórico de referência e uma tecnologia específica de avaliação do grau e do tipo de sofrimento apresentado pela pessoa.

ALGUNS PRESSUPOSTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS

  1. Cada interação é única – As manifestações de sofrimento mental, embora presentes e identificadas em uma pessoa, ocorrem em determinados contextos relacionais e socioculturais. A existência do problema mental (objeto da entrevista) e a possibilidade de compreendê-lo se inscrevem em uma específica situação. No trabalho de enfermagem em Saúde Mental, as expressões individuais – emoções, sentimentos, atitudes, comportamento – de enfermeiros e de indivíduos compõem um quadro único, dinâmico e interativo de relações recíprocas.
  2. Relacionamento terapêutico – A análise do problema apresentado requer dos enfermeiros, no plano objetivo, conhecimento teórico-prático e, no plano subjetivo, um nível mínimo de autoconscientização ou autoconhecimento. Desde a entrevista inicial de acolhimento e avaliação, o enfermeiro precisa fazer uso positivo de sua própria personalidade, ferramenta básica para o relacionamento terapêutico com os indivíduos. Para isso, há a necessidade de ampliar continuamente a consciência e o conhecimento de si mesmo. No trabalho de enfermagem em Saúde Mental é necessário que os enfermeiros analisem seus sentimentos, suas reações e atitudes instintivas inicialmente apresentadas (medo, por exemplo), para que possam ser reelaboradas e se constituam em instrumentos de trabalho adequados para a abordagem terapêutica das pessoas em sofrimento mental. Dessa forma, fará uso de si mesmo como ferramenta terapêutica.

Com essas premissas, situamos o trabalho assistencial de enfermagem, desde a entrevista inicial, na perspectiva da historicidade dos sujeitos envolvidos, da complexidade e da realidade das relações estabelecidas, em contraposição à pretensão de universalidade e neutralidade do conhecimento científico.


*Trecho retirado do livro Enfermagem em Saúde Mental e Psiquiátrica (Elsevier)

– Imagem: pixabay

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