Aprendendo com a água

Hidrocidades: pesquisa e prática sobre uso racional e conservação

Se o crescimento é caótico, haverá problemas. A população do Sudeste sentiu isso na pele durante a crise hídrica vivida pela região entre 2015 e 2016. Diz Luciene Pimentel da Silva, autora do livro “Hidrologia – Engenharia e Meio Ambiente”, da Elsevier:

“A maior parte da população do mundo habita áreas urbanas. Se por um lado isso traz os benefícios do acesso a serviços importantes e perspectivas de melhor qualidade de vida, por outro provoca vários problemas que comprometem o desenvolvimento sustentável, sobretudo nos países em desenvolvimento. Os recursos hídricos, também associados à geração de energia e produção de alimentos, são essenciais ao desenvolvimento.”

Diante dessa questão, foi criado o projeto Hidrocidades, que incentiva o reforço de práticas sustentáveis nas escolas por meio da adoção de ecotécnicas, como telhados verdes e captação de águas pluviais, entre outros. Comandado pela professora Luciene, desde 2007 ele promove investigações científicas e ações para o uso racional e a conservação da água, com geração de trabalho e renda e promoção da inclusão social. O Hidocidades envolve pesquisadores e alunos das UERJ, da UFRRJ e da UFRJ, além de escolas e da comunidade local. Também pesquisadora da UERJ, Luciene destaca:

O desenvolvimento do projeto acontece pela metodologia de pesquisa-ação, que se baseia no conhecimento adquirido vivenciando a realidade, em contato com os atores sociais envolvidos, que estabelecem as prioridades dos problemas a pesquisar e das soluções encaminhadas sob a forma de ação concreta. A região hidrográfica da Baixada de Jacarepaguá é objeto principal do estudo, em especial a área chamada de Lote de Drenagem 3, onde se inserem os bairros de Vargem Grande e Vargem Pequena.

Conhecimento e engajamento

Luciene conta que na região de montante da Estrada dos Bandeirantes – próximo ao Parque de Águas e inserida no sistema de drenagem do canal do Rio Morto, que deságua no bairro do Recreio, na praia da Macumba – foi implementado um monitoramento socioambiental, fisiográfico, climatológico e hidrológico, este último, envolvendo níveis de água, vazões e parâmetros de qualidade da água. A professora conta:

Estabelecemos unidades experimentais demonstrativas de técnicas construtivas que fazem parte do desenvolvimento urbano de baixo impacto, com destaque para os telhados verdes, unidades de captação de águas pluviais para usos não potáveis e pavimentos permeáveis, além de técnicas de agroecologia e prática de compostagem. As unidades foram implementadas sobretudo na Escola Municipal Professor Teófilo Moreira da Costa, em Vargem Grande, e integradas às aulas de ciências e de geografia como exemplos de ecotécnicas.

O envolvimento da comunidade da escola é um ponto muito relevante e importante do projeto, pois ajuda na criação de uma mentalidade sustentável nos alunos, abrindo a possibilidade de um futuro dentro de conceitos ecológicos. Entre 2010 e 2011, foi implementado um grupo gestor de águas, envolvendo professores e alunos. Além da escola, na comunidade da Vila Cascatinha e no bairro de Vargem Grande (envolvendo a AMA-Vargem Grande) foram realizadas ações de mobilização, oficinas de sensibilização, cursos de capacitação e pesquisa envolvendo entrevistas e questionários sobre a percepção socioambiental. A professora afirma:

Durante esses anos, o projeto Hidrocidades obteve fomento do Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento (CNPq), da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) e da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP). Foram desenvolvidos vários livros, artigos científicos, de extensão e trabalhos acadêmicos, como iniciação científica, trabalhos de graduação, dissertações de mestrado e teses de doutorado. Acreditamos que, respeitando as especificidades, a estratégia de investigação e metodológica, as ideias e unidades experimentais, os produtos e resultados gerados possam ser adaptados ou mesmo replicados para outras áreas geográficas e grupos de interesse.

Efeito multiplicador

Os pesquisadores envolvidos na criação do Hidrocidades desde o início pensaram em maneiras de envolver a comunidade local nas ações de extensão e pesquisa. Assim, chegou-se à conclusão de que uma escola seria o ambiente democrático ideal, porque além de ser um espaço de educação tem também um efeito multiplicador. A escola Municipal Teófilo Moreira da Costa foi escolhida como piloto porque, segundo a pesquisadora:

É um espaço muito interessante, cujos diretores têm demonstrado muito interesse no projeto. No passado, foi uma escola agrícola, e vários de seus alunos residiam na comunidade da Vila Cascatinha em Vargem Grande, parceira do Hidrocidades. Durante adaptações e reparos realizados pela prefeitura, a diretora da instituição conseguiu que optassem pela instalação de pavimento permeável, tipo blocos vazados, no pátio. Foi o envolvimento da escola que despertou o interesse das entidades educacionais, das universidades e da Secretaria Estadual de Educação.

Conforme o projeto cresce, o público beneficiado também se amplia gradativamente. A professora Luciene Pimentel foi convidada a participar de eventos que possibilitaram encontros com  professores de outras escolas do Estado do Rio de Janeiro interessados em ecotécnicas e iniciativas parecidas. Estiveram presentes também professores e secretários de governo.

A cooperação entre o Hidrocidades e o NUREDAM, coordenado pela Professora Elza Neffa, também motivou a produção de um capítulo sobre engenharia e educação ambiental no livro “Indicadores de Sustentabilidade em Engenharia”. Nessa obra, a professora Luciene Pimentel contou com o apoio dos pesquisadores Pedro Augusto Pinheiro Fantinatti, Antonio Carlos Zuffo e André Munhoz de Argollo Ferrão, da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Vale informar que o professor Zuffo também coordena a Rede de Pesquisa MCT/FINEP de Bacias Representativas de Uso Misto (BRUM), no qual o projeto Hidrocidades também se integra.

Interagindo com a comunidade

A interação entre os participantes se dá de várias formas, desde o contato diário no planejamento de aulas, oficinas e encontros nas instituições até as ações de mobilização promovidas no bairro.

Nas oficinas, ações e eventos, é incentivada a participação das famílias, que por sua vez acabam envolvendo amigos e vizinhos. Um bom exemplo é o “Dia da Colheita”, realizado em 2010 com a liderança do professor Wellington Mary, do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Na ocasião, os alunos foram em grupos visitar o telhado verde e puderam realizar a colheita dos pés de alface que observaram crescendo no local, levando-os para casa e compartilhando com a família. A interação se dá também pela divulgação, em livros e periódicos, do trabalho desenvolvido.

Pesquisa: essencial para o projeto

A pesquisa para o projeto Hidrocidades e as iniciativas de ecotécnicas foram feitas com validação, integração e conexões por meio de bancos de dados bibliográficos, redes sociais, ferramentas de busca e vários livros e periódicos científicos. Segundo Luciene Pimentel, tanto para a produção do livro quanto para o desenvolvimento do projeto foi essencial a disponibilização de informações das bases de dados. Destaca a autora:

A consulta às bases de dados possibilitou consolidação da qualidade da obra, já que permitiu a identificação de artigos em eventos e em periódicos científicos com artigos revisados por pares de altíssimo nível, de várias das iniciativas do projeto e das ecotécnicas. As bases apresentam também referências a outras obras em áreas associadas, projetos e eventos tecnológicos e de ciência, cujos artigos contribuíram muito para a validação de resultados do nosso projeto e a consolidação do material didático produzido.

De acordo com a pesquisadora, os livros “Hidrologia – Engenharia e Meio Ambiente” e “Indicadores de Sustentabilidade em Engenharia” permitiram a disseminação das ideias, produtos e resultados da pesquisa para um público ainda mais amplo, inspirando e apoiando – com o  fornecimento de material didático de qualidade – a formação de alunos e profissionais de diferentes cursos de graduação, capacitação e pós-graduação.

Engenharia ambiental, uma carreira em ascensão

O curso de Engenharia Ambiental está voltado para o desenvolvimento sustentável, integrando as dimensões social, ecológica, tecnológica e econômica do meio ambiente. O principal objetivo de quem se forma nessa área é desenvolver técnicas de preservação do ar, da água e do solo. Além disso, são estudados os problemas do meio ambiente para projetar, operar e construir sistemas de esgoto e água, sempre respeitando os limites de exploração ambiental. Segundo Luciene:

Entre as questões ambientais, destaca-se a questão da água, essencial na manutenção da vida no planeta, produção de alimentos e geração de energia, essenciais no desenvolvimento socialmente justo e sustentável. A recente crise hídrica pela qual passaram algumas das cidades mais populosas do país evidenciou a importância de profissionais com formação robusta, adequada para propor soluções em acordo com os grandes desafios que surgem no contexto em que vivemos, de mudanças climáticas.

A pesquisadora explica que muitos dos conceitos são sobre a ciência da hidrologia e sua aplicação em diferentes áreas do conhecimento, apresentando o mercado e as oportunidades em ONGs, instituições governamentais e do direito privado, cujas atuações demandam profissionais com conhecimentos em hidrologia. Ressalta a autora:

O livro pretende suprir uma carência identificada em conjunto com meus editores, de materiais de engenharia voltados sobretudo para a formação dos engenheiros ambientais.

Para mais informações sobre os livros citadosclique aqui